Em 12 de fevereiro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas deu um passo histórico ao nomear os 40 membros do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial. Trata-se do primeiro órgão científico global inteiramente dedicado a avaliar os impactos reais da IA nas economias e sociedades do mundo. A decisão, aprovada por 117 votos a favor, 2 contra e 2 abstenções, marca uma nova fase na governança multilateral de IA.
Origem e contexto
A criação do Painel remonta a 2023, quando o Secretário-Geral António Guterres convocou um Corpo Consultivo de Alto Nível sobre IA, reunindo tecnólogos, acadêmicos e formuladores de políticas públicas. O relatório final desse grupo, "Governing AI for Humanity", publicado em setembro de 2024, identificou lacunas críticas na governança global de IA e recomendou, entre outras medidas, a criação de um painel científico independente.
A recomendação foi endossada pelo Pacto para o Futuro, adotado pela Assembleia Geral em 2025, que formalizou a estrutura do Painel e estabeleceu os critérios para seleção de seus membros. O processo culminou na nomeação de fevereiro de 2026.
Mandato e funções
O Painel tem mandato de três anos (fevereiro de 2026 a fevereiro de 2029) e seus membros atuam em capacidade pessoal — ou seja, não representam governos ou instituições. Suas funções principais são:
- Relatório anual: produzir avaliações científicas baseadas em evidências sobre oportunidades, riscos e impactos da IA, para apresentação no Diálogo Global sobre Governança de IA da ONU
- Briefs temáticos: publicar análises aprofundadas sobre setores prioritários como saúde, energia e educação
- Atualizações periódicas: informar a Assembleia Geral até duas vezes por ano sobre desenvolvimentos relevantes
- Grupos de trabalho: formar subgrupos especializados e consultar especialistas externos quando necessário
O primeiro relatório inaugural está previsto para julho de 2026, o que significa que o Painel terá menos de cinco meses para produzir sua primeira avaliação abrangente — um cronograma ambicioso que reflete a urgência do tema.
Composição e diversidade
Os 40 membros nomeados incluem 19 mulheres e 21 homens, representando uma diversidade geográfica e disciplinar significativa. Entre os nomes de destaque estão:
- Sonia Livingstone (Reino Unido) — professora da London School of Economics, especialista em mídia digital e direitos
- Balaraman Ravindran (Índia) — chefe do departamento de Ciência de Dados e IA do IIT Madras
- Maria Ressa (Filipinas) — jornalista e laureada com o Nobel da Paz, com ampla experiência em desinformação digital
A diversidade de perfis — que vai da ciência da computação ao direito, do jornalismo à economia do desenvolvimento — reflete a compreensão de que a IA é um fenômeno transversal que não pode ser avaliado apenas pela ótica técnica.
Controvérsias e resistências
A votação na Assembleia Geral revelou tensões geopolíticas importantes. Os Estados Unidos votaram contra, classificando o Painel como "uma extrapolação significativa do mandato e da competência da ONU" e argumentando que a organização deveria focar em prioridades tradicionais como paz e direitos humanos.
A Ucrânia se absteve, citando "sérias reservas" sobre um especialista indicado pela Rússia, alegando conflitos de interesse com instituições estatais russas. Esses episódios evidenciam que a governança de IA é inerentemente geopolítica — a composição de um painel científico reflete disputas por influência e visões de mundo.
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Por outro lado, o Grupo dos 77 e China defenderam enfaticamente a inclusão justa de países em desenvolvimento na governança de IA, destacando que as decisões tomadas agora determinarão se a IA ampliará ou aprofundará desigualdades globais.
O que o Painel pode mudar na prática
Embora o Painel não tenha poder regulatório vinculante, sua influência pode ser significativa por quatro caminhos:
- Redução da assimetria de conhecimento: países em desenvolvimento frequentemente carecem de capacidade técnica para avaliar riscos de IA. Os relatórios do Painel podem servir como base científica para formulação de políticas nacionais
- Padronização de vocabulário e métricas: a fragmentação conceitual é um dos maiores obstáculos à cooperação internacional em IA. Um corpo científico global pode ajudar a estabelecer definições e indicadores comuns
- Legitimação de agendas: relatórios da ONU historicamente influenciam agendas nacionais — o IPCC (clima) é o exemplo mais evidente. O Painel de IA pode desempenhar função análoga
- Pressão por transparência: a mera existência de um órgão de escrutínio científico global pode incentivar maior transparência por parte de empresas e governos que desenvolvem ou implementam sistemas de IA
Implicações para o Brasil
O Painel traz oportunidades e desafios específicos para o Brasil:
- Alinhamento regulatório: os relatórios do Painel poderão informar a regulamentação do PL 2338/2023, que tramita na Câmara dos Deputados. Ter uma referência científica global facilita a calibração de exigências regulatórias ao contexto brasileiro
- Representação: a composição do Painel reforça a importância de o Brasil manter presença ativa em fóruns multilaterais de IA. A experiência brasileira com a LGPD e com frameworks setoriais (como as resoluções do TSE para IA eleitoral) é valiosa para o debate global
- Capacitação: os briefs temáticos do Painel, especialmente em saúde e educação, podem subsidiar políticas públicas brasileiras nessas áreas, onde a adoção de IA cresce rapidamente sem governança adequada
- ANPD e SIA: quando o Marco Legal da IA for aprovado, o Sistema Nacional de Regulação e Governança de IA (SIA), coordenado pela ANPD, poderá se beneficiar das metodologias e avaliações de risco produzidas pelo Painel
Análise do IBGIA
Na avaliação do IBGIA, a criação do Painel Científico Internacional de IA é um avanço necessário, mas insuficiente por si só. Três elementos serão determinantes para seu sucesso:
- Independência real: os membros atuam em capacidade pessoal, mas a pressão geopolítica sobre suas conclusões será intensa. O Painel precisa de mecanismos robustos para proteger sua independência editorial e metodológica
- Agilidade: a IA evolui em meses, não em anos. Se o Painel adotar o ritmo lento típico de organismos multilaterais, seus relatórios serão obsoletos antes de serem publicados. O cronograma de julho de 2026 para o primeiro relatório sugere consciência dessa urgência
- Conexão com reguladores nacionais: o valor do Painel será maximizado se seus relatórios forem efetivamente utilizados por reguladores nacionais. Criar canais de diálogo entre o Painel e autoridades como a ANPD no Brasil, a CNIL na França e o AI Office da UE será essencial
O surgimento de um "IPCC da IA" — como o Painel já está sendo chamado informalmente — reflete o reconhecimento de que a inteligência artificial é, como as mudanças climáticas, um desafio civilizatório que exige cooperação científica global. Resta saber se a comunidade internacional terá a vontade política de transformar ciência em governança efetiva.
Acompanhe as análises do IBGIA sobre governança de IA e o marco regulatório brasileiro para se manter atualizado sobre esses desenvolvimentos.
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