O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu um passo histórico ao aprovar, em 2 de março de 2026, um conjunto de resoluções que regulamentam especificamente o uso de inteligência artificial nas eleições municipais e estaduais. A medida posiciona o Brasil como um dos primeiros países do mundo a estabelecer regras claras sobre IA no contexto eleitoral.
O que mudou
As novas resoluções do TSE abordam três eixos principais:
1. Transparência em conteúdo gerado por IA
Todo material de propaganda eleitoral que utilize imagens, áudio ou vídeo gerados ou substancialmente modificados por IA deverá conter identificação clara e visível. A resolução estabelece padrões técnicos para marcação (watermarking) e rotulagem, incluindo:
- Marca d'água digital obrigatória em conteúdo sintético
- Rótulo textual "Conteúdo gerado por IA" em destaque
- Metadados técnicos rastreável via padrões C2PA
- Aplicação tanto para material oficial de campanha quanto para impulsionamento pago
2. Proibição de deepfakes eleitorais
A criação e divulgação de deepfakes — conteúdo sintético que simula de forma realista a aparência ou voz de candidatos, autoridades eleitorais ou figuras públicas — fica expressamente proibida no contexto eleitoral. A proibição se estende a:
- Vídeos e áudios sintéticos que simulem candidatos
- Manipulação de declarações reais para alterar o sentido
- Chatbots que se passem por candidatos ou partidos
- Conteúdo satírico não identificado como tal
3. Responsabilidade das plataformas
Plataformas digitais com mais de 10 milhões de usuários no Brasil ficam obrigadas a:
- Implementar sistemas de detecção automática de deepfakes eleitorais
- Criar canais de denúncia específicos para conteúdo eleitoral sintético
- Remover conteúdo irregular em até 24 horas após notificação judicial
- Preservar registros e metadados de conteúdo impulsionado para auditoria
Contexto internacional
A iniciativa brasileira acompanha um movimento global. A União Europeia já havia incluído disposições sobre IA em seu Digital Services Act, e o EU AI Act classifica deepfakes como uso de risco limitado que exige transparência. Os Estados Unidos adotaram abordagem mais fragmentada, com regulamentações estaduais (como a lei de deepfakes eleitorais da Califórnia) e diretrizes da FEC sobre IA em anúncios políticos.
O diferencial brasileiro está na especificidade: enquanto outros países tratam IA eleitoral dentro de marcos regulatórios mais amplos, o TSE criou regras específicas e detalhadas para o contexto democrático nacional, com mecanismos de enforcement integrados ao processo eleitoral.
Impactos práticos
Para partidos e candidatos, as novas regras exigem adaptação imediata. Campanhas que utilizem ferramentas de IA para criação de conteúdo precisarão implementar processos de revisão e rotulagem. O descumprimento pode resultar em multas de até R$ 100 mil por ocorrência, além de possível impugnação de candidatura em casos graves.
Para empresas de tecnologia e fornecedores de serviços de IA, abre-se um mercado de conformidade eleitoral que inclui ferramentas de watermarking, sistemas de detecção de deepfakes e plataformas de auditoria de conteúdo.
Para a sociedade civil, as regras representam um avanço na proteção da integridade democrática, embora especialistas alertem que a eficácia dependerá da capacidade de fiscalização do TSE e da cooperação das plataformas.
Análise do IBGIA
Na avaliação do IBGIA, as resoluções do TSE representam um marco positivo, mas precisam ser complementadas por três elementos:
- Capacitação técnica dos tribunais regionais para identificar e julgar violações envolvendo IA
- Cooperação internacional para lidar com conteúdo gerado e distribuído a partir de servidores no exterior
- Educação do eleitorado sobre como identificar conteúdo sintético e verificar informações
A regulamentação eleitoral de IA é um microcosmo dos desafios mais amplos que o Brasil enfrenta com o PL 2338/2023. As lições aprendidas nesse ciclo eleitoral serão valiosas para o aprimoramento do marco regulatório geral de IA no país.
Don't miss the next analysis
Subscribe to the IBGIA newsletter for exclusive articles, regulatory alerts and AI governance analyses. You'll also receive our free AI Governance Checklist — a practical guide with 20 items to assess your organization's maturity.
Pesquisa Nacional · 3 minutos
Contribua com o primeiro mapeamento independente de IA no Brasil
Respostas anônimas. Resultado público. Seu ponto de vista conta para moldar a regulação de IA no Brasil.
Responder pesquisa